Devoradores de Estrelas
A volta da inocência.
É fato que desde que as redes sociais passaram a fazer parte do nosso dia a dia, nos tornamos seres cada vez mais cínicos, afinal, a partir do momento em que existe algo na palma da mão que pode jogar qualquer pessoa ao estrelato, pelo motivo que for, existe uma desconfiança natural do público sobre a veracidade de pessoas e situações.
Isso fez muito bem para o cinema, principalmente nos últimos vinte anos, permitindo que as discussões se ampliassem em volta de determinados assuntos de forma mais direta.
Não que isso já não acontecesse antes, mas acontecia com menos “boa vontade”, digamos assim.
Não por acaso, quando pensamos nos grandes personagens da cultura pop desse século, pensamos nos vilões como o Coringa do Heath Ledger, Thanos, Anton Chigurh, Walter White. Não por acaso, nesses últimos anos, também existem tantos filmes focados na origem dos vilões.
A impressão que tenho é que sempre caminhamos aos dois extremos de algo até encontrarmos o equilíbrio. James Gunn e seu Superman foram o primeiro resgate ao heroísmo clássico, aquela bondade mais genuína, e podemos citar como exemplo o recente Cavaleiro dos Sete Reinos e o seu protagonista, Sir Dunk.
Devoradores de Estrelas é mais um capítulo dessa história, ainda que seja sobre a desconstrução de um herói.
E digo desconstrução porque a sensação (e posteriormente a confirmação) que temos é que o Ryland Grace, protagonista vivido pelo Ryan Gosling, jamais teve pretensão alguma de salvar o universo.
Confesso, apesar de gostar da ideia, esse é o principal calcanhar de Aquiles do filme, ao menos para mim. Primeiro que a história tem dificuldade de convencer que o Ryland é esse gênio não reconhecido, algo que ele mesmo inicialmente nega, mas a partir de determinado momento do filme você entende que ele será capaz de resolver qualquer problema, seja através da inteligência ou mesmo pilotando uma nave, outra coisa que o personagem diz não saber fazer.
E caso você esteja lendo esse texto antes de ver ao filme, esqueça as comparações com Interstellar ou mesmo 2001, porque esse é um filme que está menos interessado na ciência ou na questão filosófica do fim do universo e mais numa fantasia e numa amizade.
A relação entre Grace e Rocky, o alienígena feito de pedras, carrega o que o filme tem de melhor: o humor irônico e lúdico e a emoção de uma amizade improvável. É algo muito parecido com o que vimos lá em Anjos da Lei, que tem os mesmos diretores desse filme, o Phil Lord e o Chris Miller e que aqui continua funcionando muito bem.
O roteiro e a direção sabem o poder dessa relação e chega num determinado momento que o espectador esquece que esse é um filme sobre salvar o universo. Um problema, mas que acaba se tornando um trunfo, porque os momentos mais fracos do filme são justamente quando esses dois personagens não estão juntos em cena.
Ambos os personagens carregam aquela bondade genuína e aquele otimismo citados lá no início do texto, e a vontade é sempre ver mais deles. A própria menção ao Rocky Balboa, provavelmente o herói mais altruísta da história do cinema, acaba sendo um aceno para o que o filme pensa sobre as relações, sejam elas humanas ou não.
Se você achou que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo seria o único filme a te fazer chorar por conta de uma pedra, achou errado.
É o tipo de blockbuster que o cinema anda precisando, que está um pouco mais disposto a ir além do raso, mesmo não saindo tanto assim da superfície (uma coisa de cada vez) e que traz personagens novos para a grande tela.
Sinto que o filme emociona apelando para alguns gatilhos fáceis? Sinto.
Sinto que o filme se segura em diversos momentos para não ficar denso demais? Completamente.
Mas, sinceramente, eu veria Devoradores de Estrelas seis vezes antes de ver qualquer filme de herói que parece um copia e cola de outro filme que já deu certo, porque apesar das ressalvas é um filme com identidade, tanto visual, quanto narrativa.





Falou bem e deu nota baixa! 😝
Minha esperança no Adm está renovada.