The Drama
O Crime e Castigo da Geração Z.
Contém spoilers.
Lá em 1866, um escritor russo chamado Fiódor Dostoiévski, lançava um livro que ficaria marcado para sempre na literatura mundial: Crime e Castigo. A densa obra, que conta a história de Raskólnikov, um homem à beira da miséria que comete um assassinato e perde completamente o controle mental, inicialmente pelo medo de ser punido e posteriormente pelo medo de não ser, é uma verdadeira aula sobre ética, moral e comportamento social.
O livro ecoa até hoje, tanto no meio acadêmico, quanto na cultura pop, tendo inclusive adaptações para o cinema. Afinal, 160 anos depois, inúmeras coisas mudaram, mas continuamos vivendo numa sociedade bastante cristã, que reforça a ideia de que, se você cometeu um erro, não pagar por ele aqui na terra pode te afastar da vida eterna ao lado de Deus.
O que pode ser então mais sagrado do que o casamento?
A “Uma Só Carne”, expressão presente no livro de Gênesis, define a união de duas pessoas em matrimônio como a integração física, emocional e espiritual, em que o “nós” prevalece sobre o “eu”.
Mas será que hoje, num mundo cada vez mais individualista, algo assim continua sendo possível?
É sob essa premissa e todo esse peso cultural, religioso, social, que nasce The Drama, filme dirigido por Kristoffer Borgli e estrelado por Robert Pattinson e Zendaya.
Nele, conhecemos o jovem casal, Emma e Charlie, que está prestes a se casar, até que, em um momento que deveria ser de descontração, Emma revela que, em um ponto da sua adolescência, planejou um tiroteio numa escola. Mesmo que o plano nunca tenha se tornado realidade, a revelação muda toda a dinâmica do casal e daqueles à sua volta.
Dentre os muitos temas que o filme aborda, o mote central dele está principalmente no que parece ser, versus o que realmente é, e isso já começa no material de divulgação que vende um casal completamente feliz, como se realmente fossem almas gêmeas, enquanto no filme você presencia algumas dessas fotos sendo tiradas e como o clima daqueles momentos era por vezes horrível.
Quem é que nunca conheceu um casal que não se suporta na vida real, mas vive nas redes sociais declarando o seu amor?
E vai além, mesmo quando as coisas estão “dando certo”, o filme faz questão de desconstruir aquela ideia de um encontro perfeito, colocando em cena os silêncios constrangedores, o desconforto de não saber exatamente o que dizer e o medo de estar falando a coisa errada, a coisa que desagrada.
Antes que me esqueça, não, esse não é um filme que está interessado em falar sobre os atentados em escolas dos Estados Unidos. O roteiro usa essa informação mais como um artifício para refletir o que pode haver de pior na sociedade.
É como se a câmera nunca devesse estar ali, gerando uma mistura de sentimentos entre comicidade, constrangimento e tragédia.
É um trabalho de montagem e de direção primoroso, que está construindo e destruindo coisas ao mesmo tempo, como se estivesse mesmo se contradizendo. É como aquela informação a mais que você deu num primeiro encontro e depois percebe que não precisava.
A partir dessas escolhas técnicas, parece que temos dois filmes em paralelo: um em que os personagens sonham, no qual as coisas magicamente voltam para os trilhos, e outro em que tudo vai de mal a pior, a realidade.
E é isso que, de certa forma, “atualiza” a discussão de Crime e Castigo, porque não se trata apenas de consciência moral, mas de como a sociedade vai passar a olhar para aquilo, ao mesmo tempo em que Charlie parece precisar que olhem logo, para que possa existir um recomeço.
Se você reparar, a Emma já parece muito bem resolvida com aquele passado que deixou para trás; o que a incomoda, na verdade, é ter que lidar com as consequências de aquilo ser trazido à tona. É Charlie que entra em colapso, pensando no que vai ser, no que as pessoas vão pensar, passando até mesmo a ressignificar momentos do passado do casal.
Outra discussão que o filme traz, mais uma, é do medo do cancelamento, com a Rachel, personagem da Alana Haim, sendo quase uma representação do tribunal da internet.
Sinceramente? O que a Rachel conta que fez com o garoto na floresta é pior do que a Emma fez; afinal, a Rachel de fato fez algo e não ficou apenas no mundo das ideias.
Mas ela se coloca desde o início nesse papel de juiz, quando a Emma conta que o Charlie é seu primeiro amor, Rachel questiona:
“Com quase 30 anos?”
Não é exatamente esse tipo de comentário que a internet faria se a Emma fizesse um vídeo sobre isso?
Rachel pode errar, Emma não.
Mas voltando ao Charlie...
Charlie é um retrato de como nossa consciência se tornou virtual, não porque nos tornamos mais altruístas, mas porque o que parecemos para os outros é bem mais importante do que o que de fato somos.
Charlie é o Raskólnikov, Charlie é quem precisa ser punido, precisa ser punido publicamente, e diante da falta de ação de Emma perante ao que está acontecendo, ele vai e de fato erra, para que de alguma forma possa se sentir como Emma está se sentindo.
No fim, Charlie é punido com a agressão e isso o “liberta”, em uma belíssima cena onde o personagem dança sozinho e abraça a si mesmo.
Não tem um final explicado melhor do que esse.
É o filme abandonando completamente o ideal do casamento em que dois se tornam um, ou ao menos esse um perfeito, pois se tornar um também é a junção das partes feias, daquelas que nem queremos lembrar ou olhar. É por isso que na última cena, os personagens estão se apresentando um para o outro mais uma vez, para que mais uma vez eles se permitam ser simplesmente Charlie e Emma.
E aí fica a pergunta: será que realmente queremos conhecer o outro por inteiro ou é só uma falácia que dizemos para parecer mais bonitinhos pra quem olha de fora?
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Curti a conexão com Crime e Castigo porque o filme retrata a culpa para o mundo das redes sociais, onde a punição deixou de ser apenas moral e virou também performática. O Charlie é um sujeito atormentado pela percepção pública do que pelo fato em si e isso mosta a ansiedade contemporânea de existir sob julgamento constante. Também achei interessante como seu texto evita transformar o passado da Emma em um debate superficial sobre violência escolar e usa isso como espelho das contradições humanas e afetivas. No fim, é isso, esse filme é uma crítica sobre relacionamentos, imagem e intimidade real, dessas que deixam uma estranheza...é aquela conversa desconfortável que continua na cabeça horas depois.
Adorei o texto e sua percepção sobre o final. Gosto de como ele reverbera e traz ao mesmo tempo esse incômodo e essa necessidade de falar sobre oq incomodou.